Por que as comunidades rurais de Petrolina, no sertão de Pernambuco, continuam gritando por água e ninguém resolve esse problema?
Em uma região banhada pelo Rio São Francisco e reconhecida internacionalmente pela força da agricultura irrigada, milhares de famílias da zona rural ainda convivem com a escassez de água, o abastecimento precário e a falta de políticas públicas permanentes.
Petrolina, no sertão de Pernambuco, é conhecida nacionalmente como uma potência agrícola. Seus frutos chegam a diversos países, seus projetos irrigados são referência e o Rio São Francisco é símbolo de riqueza, produção e desenvolvimento.
Mas existe uma pergunta que ecoa diariamente nas comunidades rurais e que, até hoje, parece não ter uma resposta convincente:
Por que as comunidades rurais de Petrolina ainda sofrem tanto com a falta de água?
A pergunta não surge de um discurso político nem de uma disputa partidária. Ela nasce da realidade vivida por milhares de famílias que, em pleno século XXI, ainda dependem de carros-pipa, enfrentam sistemas precários de abastecimento e, em muitos casos, consomem água sem o tratamento adequado.
O mais intrigante é que essa realidade acontece justamente em uma das regiões mais conhecidas do Nordeste brasileiro pela abundância hídrica proporcionada pelo Rio São Francisco. Uma região onde a água movimenta a economia, gera empregos e transforma áreas antes consideradas improdutivas em polos agrícolas de destaque nacional e internacional.
Então, por que a água que impulsiona o desenvolvimento não consegue chegar de forma adequada a quem vive nas comunidades rurais?
É preciso esclarecer uma questão importante. Quando os moradores cobram mais água, não estão pensando apenas no consumo doméstico. Quem vive no interior sabe que a água representa muito mais do que isso.
A água serve para matar a sede da família, mas também para manter um pequeno plantio, produzir alimento, criar galinhas, cabras, ovelhas e bovinos. A água garante a sobrevivência das famílias e ajuda a manter a economia rural funcionando.
Sem água suficiente, não existe produção. Sem produção, não existe renda. Sem renda, aumentam as dificuldades e diminuem as oportunidades para quem deseja permanecer no campo.
Comunidades como Ponta da Serra, Porteiras e tantas outras localidades da zona rural de Petrolina convivem há anos com reclamações semelhantes. Os relatos se repetem: bombas insuficientes, tubulações antigas, baixa pressão na rede, interrupções frequentes e dificuldades para ampliar os sistemas existentes.
As associações comunitárias desempenham um papel importante e merecem reconhecimento. Muitos presidentes de associações dedicam seu tempo para tentar garantir o funcionamento das adutoras e resolver problemas do dia a dia. Porém, é injusto transferir para essas lideranças uma responsabilidade que deveria ser compartilhada com o poder público.
Quando falta estrutura, investimento e planejamento, a boa vontade sozinha não resolve.
Talvez a pergunta mais difícil não seja por que falta água. Talvez a pergunta correta seja: por que esse problema continua existindo depois de tantas décadas?
Se foi possível construir grandes sistemas para abastecer projetos irrigados, por que não avançar também em projetos estruturadores voltados para as comunidades rurais?
Se existe capacidade técnica para levar água a grandes áreas produtivas, por que tantas famílias continuam dependendo de soluções emergenciais?
Se todos os anos o problema se repete, por que o abastecimento rural ainda não ocupa posição prioritária na agenda política?
São questionamentos legítimos que merecem respostas claras da classe política, dos órgãos responsáveis pelo abastecimento e das instituições que atuam na gestão dos recursos hídricos.
Não se trata de apontar culpados. Trata-se de buscar soluções.
As comunidades rurais precisam de investimentos duradouros, ampliação das redes de distribuição, modernização dos sistemas de bombeamento, reservatórios adequados, assistência técnica para as associações e, principalmente, um planejamento capaz de atender o crescimento da demanda.
O debate também precisa ir além das promessas feitas em períodos eleitorais. A população rural não quer discursos. Quer resultados.
Afinal, não é razoável que famílias que vivem em uma das regiões mais privilegiadas do Nordeste em recursos hídricos continuem enfrentando dificuldades para acessar um direito tão básico.
O acesso à água de qualidade não deveria ser tratado como um sonho distante. Deveria ser uma garantia.
Enquanto essa realidade não muda, permanece a sensação de que existem dois sertões convivendo lado a lado: um que prospera graças à água e outro que continua esperando por ela.
E talvez seja justamente essa contradição que mais precisa ser debatida.
Porque nenhuma região pode ser considerada verdadeiramente desenvolvida enquanto parte de sua população continua gritando por algo tão essencial para a vida: água.
Por Graciel Souza
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